terça-feira, 6 de abril de 2010

Afetos

A chuva derrama sobre a minha cabeça uma enxurrada de coisas sem nenhum sentido e eu simplesmente não consigo enxugar os cabelos.

Penso ser feito de algum material completamente solúvel e me protejo do que vem contra mim, seja em forma de vento, de tempestade ou de brisa.

Me tranco em mim, como água que quer virar gelo se tranca no freezer, e só saio depois de passado certo período de tempo, necessário ao meu completo endurecimento.

Saio do casulo e me derreto no caminho dos calores alheios, dos olhares que me desejam e das bocas que querem me beijar.

Na taça de vinho me enxergo nítido, vermelho e denso, como o próprio líquido que escorre pelos meus dentes e que a minha língua saboreia tão prazerosamente!

Olho pela janela e vejo um mar de água vinda do céu invadir o oceano, deixando na areia as marcas de suas pegadas.

Tenho pensamentos incontroláveis que invadem a minha mente com a força de ondas ressaquiadas e marcam a minha vida como tatuagens feitas em brasa.

E são tantas as incertezas que no momento essas são as únicas certezas que realmente possuo.

Me alago num poço de dúvidas antigas e dívidas novas e me divido entre o que mostro de fato e o que sou de feto.

E em tudo que sinto não há errado ou certo, apenas acessos, excessos, sucessos e insucessos de todos os meus afetos.

2 comentários:

Lorena disse...

Que graça haveria em nossa vida sem os nossos afetos? Deixa chover, deixa... logo mais o sol se abre!

Mariana Junqueira disse...

Adorei!
"...que mostro de fato e o que sou de feto."

Bela prosa poética, Rick. :)